"Claro que há música em que se pisam riscos morais, de mau gosto, de perigo até. Mas excluo desta conversa, como democrata convicto, qualquer apelo explícito de radicalismo ou de violência. Não era disso que falávamos. Antes de como um músico que se refere constantemente a determinados hábitos de consumo de substâncias... hum... alucinogénicas está a inspirar "jovens" a fazer o mesmo. Devo dizer que saí (relativamente) incólume de todas as minhas audições de música psicadélica, de reggae, jazz, rock ou qualquer outra música onde se tenham levado a cabo tentativas deliberadas de abertura das portas da perceção, fosse qual fosse o combustível usado em determinado momento. E o 50 Cent nunca me fez querer sair para a rua aos tiros, o Snoop não me fez comprar um varão lá para casa, o Biggie não me obrigou a mergulhar no submundo do tráfico e os Wu-Tang não me levaram a preencher nenhuma ficha de inscrição para Shaolin. Tenho-me conseguido manter a salvo de todos esses meliantes. Desses e de outros, com nomes menos exóticos, como Coppola ou Tarantino ou Peckinpah.
O mundo é tudo menos cor-de-rosa e a música, como todas as outras artes, deve refletir todas as nuances. E essa imagem projectada pode limitar-se à realidade ou ser misturada com fantasia. A música pode ser notícia e reportagem - "CNN do gueto", como lhe chamava Chuck D - ou delírio ficcional puro. Pode ser crónica biográfica ou invenção poética. Na verdade, a música pode ser tudo. Não pode é ser a eterna culpada pelas opções claramente erradas ou discutíveis das pessoas. Sejam elas enrolar um charro, partir uma montra ou disparar a matar. Marilyn Manson, não sei se sabem, é a fingir: ele dorme numa cama, come cereais e paga impostos como quase toda a gente. É deixá-lo estar à vontade. E, no fim de contas, ninguém é obrigado a ouvir a música que ele faz. Nem essa, nem nenhuma outra."
Crónica de Rui Miguel Abreu à Blitz.
